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Edição de 01-09-2010

Arquivo: Edição de 25-02-2009

SECÇÃO: Editorial

Ajudar a imprensa promover a democracia

A economia já teve melhores dias. Disso ninguém tem dúvidas. Parece-nos que a ‘poeira’ que se levanta à volta da crise económica e financeira tem naturalmente muita consistência na realidade, mas não deixa de ser verdade que há neste aspecto muita especulação. Aliás, a especulação em sectores como os mercados financeiro e o imobiliário é a causa de muitos dos problemas que vivemos actualmente. Ninguém duvida que quem vive de mecanismos especulativos estará agora a virar a sua atenção noutras direcções.

As dificuldades que se vivem em determinados sectores acabam por afectar outros, por arrastamento. Desde logo o mercado publicitário, do qual vive o sector da comunicação social é um deles. É certo, pensamos nós, que não será a melhor atitude o desinvestimento na promoção publicitária. Produtos e/ou serviços que não tenham cuidado com a sua promoção correm o risco de ser progressivamente esquecidos, agravando, ainda mais, os seus problemas.

Ao nível da imprensa, nomeadamente a imprensa regional, as dificuldades são mais que muitas. Se já é difícil (sobre)viver nos grandes centros, em zonas com maior potencial económico, imagine-se o que se passa em regiões mais desfavorecidas, como é o caso da nossa. No passado ano desapareceu um número substancial de jornais em todo o País. As regras impostas obrigaram o sector a modernizar-se e a investir em mão-de-obra qualificada e certificada. Felizmente que assim foi. Exercer a profissão de jornalista implica direitos e deveres, um código de conduta... Por outro lado, os sucessivos cortes no chamado Porte Pago só vieram trazer maiores dificuldades a uma imprensa regional a viver uma maré de dificuldades. A verdade é que aquele apoio à leitura mais não era que uma ajuda aos leitores. Aliás, deve salientar-se que os jornais não ganham nada com as assinaturas e por exemplo enviar um jornal como o NG para França importa num custo anual de mais de 50 euros. Compreende-se, assim, o que as alterações têm feito à divulgação da Língua e Cultura Portuguesas no estrangeiro.

É certo que ainda há quem pense que o digital substitui completamente a edição em papel. Não estamos de acordo, mas, ainda que fosse assim, os custos da edição digital não são muito menores que para fazer só a edição em papel. Os conteúdos que se trabalham dependem mais da qualidade dos jornalistas que das plataformas em que se veicula a informação. Há, por certo, um grande equívoco em muitas pessoas que confundem opinião com informação. Os jornais servem também para dar voz à opinião, mas são, essencialmente, órgãos de informação. Pensa-se, por outro lado, na blogosfera como uma forma de as pessoas se exprimirem. Muito bem. No entanto, os jornais têm um estatuto de deveres e direitos muito diferente desses meios. Quer tudo isto dizer que para fazer informação com algum rigor são necessários meios humanos e materiais adequados e que essa realidade ainda não tem as contrapartidas correspondentes em termos de mercado publicitário nas edições internet. Veja-se o trabalho que o NG faz por todo o distrito da Guarda. Muitas vezes se nós não formos mais ninguém está.

Enquanto em Portugal o sector vai vivendo cada vez com mais dificuldades em França o Presidente Nicolas Sarkozy anunciou recentemente um plano estatal de 600 milhões de euros que deverão ser aplicados, nos próximos 3 anos. Esta é uma forma de o Governo compensar as percas publicitárias através de um investimento que representa a duplicação do orçamento de estado para a Comunicação Social. O plano anunciado por Sarkozy baseia-se em 90 propostas compiladas no Livro Verde dos Estados Gerais da Imprensa. O presidente Sarkozy destaca ainda a necessidade dos Media se adaptarem às plataformas digitais e multimédia. Ora, em Portugal isso até tem sido feito, infelizmente com perda de leitores nas edições em papel sem a contrapartida de receitas nas edições on-line.

As dificuldades são muitas. Paga-se IVA de facturas que nunca chegarão a recibos. Muitos anunciantes pagam tarde e a más horas. Muitos jornais e rádios não vendem publicidade, acabam por dá-la, praticando preços muito abaixo dos custos de produção. Os organismos públicos, nomeadamente autarquias, esquecem que os jornais e rádios locais são meios fundamentais no desenvolvimento regional e que cada vez há menos condições para fazer esse papel. Enfim, depois do mal feito já não há remédio.

Por: António de Andrade Pissarra

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